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A BRASILEIRA
fundador: Adriano Telles, regressado do Brasil
Data
de fundação: 19 de Novembro de 1905,
«Lisboa, 17 Nov (Lusa) - O emblemático café A
Brasileira, antigo ponto de encontro de pensadores e artistas e onde nasceu o
termo "bica", comemora sábado o primeiro centenário e está a preparar um livro
onde conta episódios da sua história.
A 19 de Novembro de 1905, A Brasileira abria as suas
portas na Rua Garrett, no Chiado, pondo à venda o "genuíno café do Brasil".
Nesse dia, quem levasse um quilo - pela quantia de
720 reis - tinha direito a beber uma chávena de café de graça.

Três anos depois, A Brasileira, fundada por
Adriano Telles, regressado do Brasil, começou a vender café à chávena e a
afluência do público era crescente, o que levou à realização de obras de
remodelação que deram uma nova cara ao estabelecimento, decorado com
mobiliário de carvalho em estilo Renascença, talhas douradas e espelhos nas
paredes.
As obras deram um novo aspecto ao café que se tornou
num "elegante e luxuoso salão" e o Chiado passou a contar com um
estabelecimento moderno e com todas as características próprias de um café,
segundo um trecho do livro que será editado até ao final do ano, conforme diz
à agência Lusa o actual proprietário, Jaime Soares da Silva.
Atento às necessidades e aos reparos de uma
clientela que se fidelizava na tradição das tertúlias, Adriano Telles tentava
adaptar a decoração do seu café aos "tempos modernos", acatando novos
conceitos estéticos.
Assim, os trabalhos de remodelação começaram de novo
em 1923 e Norberto de Araújo, jornalista e famoso olisipógrafo, lançou a ideia
de se substituir as telas "pelintras" por obras representativas da "última
escola" de pintores modernistas como Almada Negreiros.
Jaime Silva, que comanda os destinos do café desde a
década de 1980, conta à Lusa que o termo "bica" para designar café nasceu no
início do século XX n'A Brasileira.
"Um dia, os clientes estavam a queixar-se que o café
não estava saboroso como habitualmente, o que levou à intervenção de Adriano
Telles", diz Jaime Silva.
Tendo ouvido comentar que o café naquele dia não
estava muito bom, o dono do café virou-se para o empregado de mesa e disse-lhe
para trazer uma "bica", uma cena presenciada pela clientela composta por
escritores, artistas e políticos.
"Com isto queria dizer chávena de café tirada
directamente do saco e não da cafeteira, onde ia perdendo gosto e aroma",
explica o proprietário do café.
A Brasileira deveu ainda muito do seu encanto aos
funcionários que serviam às mesas: o mais conhecido era "João Franco", um
galego que tinha conquistado aquela alcunha devido às suas parecenças físicas
com o político da monarquia portuguesa.
Jaime Silva lamenta que os empregados actuais já não
estejam ligados à história do café: "tenho 30 empregados de várias
nacionalidades" que pouco conhecem do historial d'A Brasileira.
Para corresponder à afluência de clientes, A
Brasileira começou a encerrar há 15 anos atrás às 02:00, o que actualmente,
segundo o proprietário, já não se justifica devido à insegurança e à falta de
policiamento no Chiado.
O responsável conta ainda que o estabelecimento tem
alguns problemas com o uso abusivo das casas de banho por pessoas que não são
clientes do café.
"Ao domingo até fazem fila", contou Jaime Silva,
apontando como motivos para esta situação o facto de ser o único
estabelecimento aberto ao domingo no Chiado e ao Metropolitano ter as casas de
banho fechadas.
Esta situação já levou o café a pagar cerca de
20.000 euros em multas à autarquia devido a queixas apresentadas pelos
clientes.
Apesar destes problemas, o proprietário quer manter
a imagem emblemática do café, onde ressalta no seu interior um balcão que
percorre todo o corredor do estabelecimento e as mesas com tampo de mármore
onde pensadores, artistas e jornalistas se reuniam em tertúlias e Almada
Negreiros leu o "Manifesto Anti-Dantas".
As paredes estão decoradas com diversas obras de
pintores como Manuel Baptista, Hogan, Azevedo, Vespeira, Rodrigo, Eduardo Nery,
João Vieira, Palolo e Noronha da Costa, que substituíram outros de uma outra
geração entre os quais se distinguiram Almada Negreiros, Eduardo Viana,
Bernardo Marques e Stuart Carvalhais.
Na esplanada do café, encontra-se uma estátua em
bronze do poeta Fernando Pessoa sentado à mesa bebendo café, da autoria do
mestre Lagoa Henriques.
Um dos percursos habituais do poeta era entre a sua
casa e o Largo do Chiado, rumo ao local de encontro habitual de poetas e
pensadores portugueses.»
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